segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Preconceito é maior entrave para ensino de crianças com deficiência



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Roosewelt Pinheiro/ABr
Brasília (DF) - O secretário parlamentar Rodrigo Marinho, portador de síndrome de Down, fala sobre a importância da inclusão escolar de crianças com necessidades especiais.
Brasília (DF) - O secretário parlamentar Rodrigo Marinho, portador de síndrome de Down, fala sobre a importância da inclusão escolar de crianças com necessidades especiais. "A gente não pode desistir do sonho de se integrar na sociedade. Eu sou muito corajoso."


Brasília - Um dos desafios do próximo governo na área de educação é a inclusão de crianças com necessidades especiais no sistema educacional. “Muitas crianças estão em casa porque as próprias famílias não acreditam que elas podem ser incluídas”, afirmou Rui Aguiar, oficial de educação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Ceará.

Um estudo do Unicef mostra que a deficiência é um fator de exclusão da escola. Considerando as crianças de 7 a 14 anos que não têm acesso à escola, 11,4% delas têm deficiência.

O índice sobe para 39% para crianças com paralisia ou falta de algum membro. De acordo com o relatório, pelo menos 179 mil crianças brasileiras nessa idade, com alguma deficiência, estão privadas de seus direito ao ensino fundamental. O estudo usou dados do Censo Demográfico de 2000.

Oferecer o direito ao ensino a essas crianças, segundo Aguiar, pode ser uma forma de garantir que possam, no futuro, contribuir para a sociedade. Rodrigo Marinho, 35 anos, é um exemplo disso. Portador de Síndrome de Down, ele estudou todo o primeiro grau em escola regular. Há três anos, trabalha em um gabinete de um deputado, como secretário parlamentar.

“Faço todo o serviço de um office-boy. Vou aos Correios, entrego cartas, tiro passagens para o deputado, vou ao banco”, diz Marinho. Depois de trabalhar, por volta de 19h, pega um ônibus e volta para a casa.

“A gente não pode desistir desse sonho de se integrar na sociedade. Eu sou muito corajoso. Não arranjo confusão na rua, não respondo [provocações]”, afirma Marinho. Para ele, é importante que as crianças com necessidades especiais estudem em escolas regulares. “Senti alguma diferença, mas coisa pouca. Não me abalou porque as pessoas são especiais comigo.”

A mãe, Diva Marinho, fez questão que Rodrigo estudasse em escola regular. “Sempre criei meu filho para a vida, não para mim”, afirma. De acordo com ela, seu filho é totalmente independente. “Se algum dia ele tiver que morar sozinho, não terá problema algum.”

A decisão de Diva foi acertada, na avaliação do oficial da Unicef. Aguiar considera importante que as crianças com necessidades especiais tenham atendimento especializado. Mas também acha necessário que freqüentem escolas regulares para se socializarem. “Essa convivência ajuda a terminar com o preconceito”.

Mas Diva já teve de tirar seu filho de uma escola particular regular, em Petrópolis, interior fluminense, por causa do preconceito. “A diretora me chamou e disse que os pais dos outros alunos falaram que iriam tirar seus filhos da escola, se ele continuasse. Então eu tirei. A gente não pode ficar em um lugar que não é querido.”

Diva viveu o preconceito considerado comum pelos especialistas da área. “Muitos professores se ressentem da falta de formação e de condições de trabalhar com crianças com necessidades educativas especiais na sala de aula”, disse Aguiar.

A professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), Amaralina de Souza, concorda que muitos professores ainda têm dificuldade em dar aulas para crianças com necessidades especiais porque acham que devem ser especialistas nesta área e dominar técnicas específicas.

“São idéias equivocadas. Eles precisam ter uma formação geral que lhes dê algumas competências”, diz a professora, especializada no tema. “Essas crianças precisam de uma rede de apoio, composta pela família, rede de saúde, especialistas, fonoaudiólogos.”

Segundo Amaralina de Souza, muitas universidades já incluem no curso de pedagogia disciplinas que preparam os professores para promover essa inclusão dos alunos com necessidades especiais. Para os professores já formados, as secretarias de educação têm oferecido cursos de formação continuada.

“A criança como cidadã tem o direito da convivência na sociedade. A inclusão é regra e direito de todos. Mas há crianças que precisam de mais apoio. Isso não impede que elas estejam em uma escola regular. No entanto, a escola especial pode, em algum momento, ser o melhor serviço a ser oferecido até que possa ajudá-la a mais tarde estar no sistema regular.”


Marcela Rebelo
Repórter da Agência Brasil
13 de Setembro de 2006
AGÊNCIA BRASIL - EBC -EMPRESA BRASIL DE COMUNICAÇÃO

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